A luta da mulher não é luta só dela.
É luta de todo aquele que se compromete com a dignidade humana — e essa dignidade não tem gênero.
Todos os dias, em algum lugar deste país, uma mulher é agredida dentro da própria casa.
Muitas vezes pela mão de quem jurou proteger.
O Brasil registra, a cada poucos minutos, um novo boletim de ocorrência de violência doméstica.
Números que deveriam envergonhar uma nação inteira — e não envergonham o bastante.
Não é falta de lei.
A Lei Maria da Penha existe há vinte anos.
É falta de compromisso real, de todos nós, em fazer valer o que ela representa.
E, para quem professa a fé, o compromisso vai além da lei civil — nasce da própria criação:
“Homem e mulher os criou”, diz o Gênesis.
Ambos à imagem e semelhança de Deus.
Nenhum acima do outro.
Nenhum menos digno que o outro.
O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, foi claro: toda forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa — por sexo, raça ou condição social — fere a dignidade humana e deve ser superada.
Não é opinião.
É doutrina.
João Paulo II dedicou uma carta apostólica inteira à mulher, a Mulieris Dignitatem.
Nela, fala da reciprocidade entre homem e mulher — não de hierarquia, mas de complementaridade na igual dignidade.
Na Familiaris Consortio, reafirmou a missão e a dignidade da mulher na família e na sociedade, chamando todos à comunhão e ao respeito mútuo, bases para superar qualquer forma de discriminação.
O Compêndio da Doutrina Social da Igreja dedica página própria ao tema, tratando a igualdade entre homem e mulher como exigência da própria criação — não como concessão da cultura ou do tempo.
E o Papa Francisco, mais de uma vez, chamou a violência contra a mulher pelo nome certo: satânica.
Palavra forte para um pecado que merece ser chamado pelo nome.
Diante disso, calar não é neutralidade.
É cumplicidade.
O silêncio do colega de trabalho que ouve a piada de mau gosto e ri, para não desagradar.
O silêncio do vizinho que escuta a briga do lado e finge que não é da sua conta.
O silêncio do pai que vê o filho tratar a namorada com desdém e não diz nada, porque “menino é assim mesmo”.
Esse silêncio tem nome: cumplicidade.
Homem que se preza não observa de longe.
Não faz vista grossa.
Não se cala por comodismo, nem por medo de “se meter”.
Homem que se preza participa.
Corrige quando é preciso corrigir.
Ensina os filhos — e as filhas — pelo exemplo, não só pela palavra.
Trata a mulher, qualquer mulher, com o respeito que a dignidade humana exige, dentro e fora de casa.
Falta isso ainda: que nós, homens, assumamos nossa parte nessa luta — não como coadjuvantes, não como aliados de ocasião, mas como responsáveis.
Porque respeito que se terceiriza não é respeito.
É omissão disfarçada de educação.
E omissão, um dia, cobra a conta.
José Luiz Dias Toffoli
De Marília – SP



