Por maioria, o Plenário seguiu o voto da relatora, conselheira Jaceguara Dantas da Silva, e o Instituto foi citado durante a sessão
Na terça-feira, 27 de outubro, o Plenário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou, por maioria, na 17ª Sessão Ordinária, a recomendação sobre violência processual de gênero, nos termos do voto da relatora, conselheira Jaceguara Dantas da Silva. O Instituto Nós Por Elas (NPE), habilitado no processo como terceiro interessado, foi citado pela relatora e pela conselheira Daiane Lira durante o julgamento.
Quando o processo vira instrumento de violência
A recomendação, registrada como Ato Normativo 0006095-65.2026.2.00.0000, enfrenta o uso do processo por agressores como forma de controle, retaliação e nova violência contra a mulher, muitas vezes depois do boletim de ocorrência ou da medida protetiva. A proposta nasceu da atuação da relatora como Ouvidora Nacional da Mulher, que defendeu uma norma própria porque a Recomendação 159/2024, sobre litigância de massa, não alcança a violência de gênero.
Foram mantidos os artigos 5º, 8º e 9º e os Anexos I e II. Eles orientam a análise do contexto e da reiteração das condutas, tratam das provas e trazem indicadores e um roteiro de atuação. O texto tem caráter orientativo e não restringe a ampla defesa.
O que foi dito na tribuna
A juíza Vivian Cristiane Eisenberg de Almeida Sobreiro (TJPR), pelo coletivo Antígona, pelo Fórum Internacional de Direito das Vítimas (Intervid) e pela Associação Brasileira das Mulheres de Carreiras Jurídicas (ABMCJ), relatou, sem identificar as partes, casos reais de varas de família, um deles com mais de 30 ações ajuizadas.

A defensora pública Helena Zane Morgado, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, com a contribuição da Defensoria do Paraná, explicou que a violência de gênero continua depois da separação e da medida protetiva, quando passa a usar faculdades processuais para intimidar e desgastar financeiramente a mulher. Segundo ela, a proposta exige decisão fundamentada, proporcionalidade e contraditório, sem criar regime especial.
Divergência e votos
O conselheiro Carlos Vinícius Alves Ribeiro divergiu parcialmente. Reconheceu que a violência processual de gênero existe e propôs incorporar o tema à Recomendação 159/2024, suprimindo os arts. 5º, 8º e 9º e os anexos, por preocupação com a independência judicial e a reserva legal, já que o tema tramita no Congresso.

Acompanharam a relatora, em geral com pedido de vênia à divergência, os conselheiros Paulo Reis Machado Botelho e Fábio Esteves, entre outros. A ministra Kátia Magalhães afirmou que a recomendação reafirma o que a lei já permite. Vários conselheiros destacaram que a convergência na essência da proposta dá um recado à sociedade.

Um voto em destaque: conselheira Daiane Lira
Um dos votos de maior destaque da sessão foi o da conselheira Daiane Lira, que anunciou voto escrito e começou cumprimentando a presidente do Instituto Nós Por Elas, Camilla Liporaci. Ela também parabenizou a relatora pela iniciativa e pela sensibilidade de levar o tema ao Plenário.
Ao defender a recomendação, a conselheira lembrou que foi necessário o Supremo Tribunal Federal declarar inconstitucional, em 2023, a tese da legítima defesa da honra (ADPF 779) e recorreu às palavras do relator, ministro Dias Toffoli, que a classificou a argumentação como “repugnante, odiosa, desumana e cruel”. Citou ainda a ADPF 1107, sobre a vida sexual pregressa da vítima.
Em seguida, destacou que a violência processual não cessa nem com a morte. Para ela, cabe ao CNJ editar uma recomendação respeitosa, para que as mulheres e meninas se sintam protegidas pelo sistema de justiça em caso de violência contra elas.
O Nós Por Elas no julgamento
A relatora também agradeceu às entidades habilitadas como terceiras interessadas, entre elas o Instituto Nós Por Elas, a AMB, a Ajufe e o consórcio Maria da Penha, além das Defensorias do Rio de Janeiro e do Paraná.

A sessão pode ser assistida na íntegra no canal do CNJ no YouTube: https://www.youtube.com/live/djcepQGD6o0. O voto da conselheira Daiane Lira começa aos 1h33min50: https://www.youtube.com/watch?v=djcepQGD6o0&t=5630s.
O Instituto Nós Por Elas agradece às entidades e às pessoas que se uniram em torno do tema. Seguimos com a missão de prevenir e enfrentar a violência contra as mulheres, aproximando instituições, organizações e sociedade de práticas que protegem e acolhem.



